Já é madrugada. Estou sozinho em meu apartamento. Os sons e luzes da avenida onde moro entram pelas frestas da janela do meu quarto. Resolvo sair na sacada e observar a vida lá embaixo. Tudo é tão pequeno visto daqui de cima. O que será que eles estão pensando?
Acendo um cigarro e suspiro.
Eu poderia estar lá embaixo, tudo parece ser tão legal. Não sei se iria me divertir. Ainda penso nela, sabe? Dou mais uma tragada. Acho que vou passar um café, daqueles bem fortes. Cairia melhor do que um uísque antigo. Não quero me embriagar hoje, sozinho. Só queria voltar no tempo agora. Vou até a cozinha e ligo a cafeteira, aquela que mais cuida de mim aqui em casa. Acendo outro cigarro e deito no sofá. As luzes entram pela sacada, como se me seguissem. O barulho está começando a me incomodar. Não sinto sono algum.
O café está pronto.
Onde será que ela está agora? O café ficou forte, do jeito que eu gosto. Resolvo sair novamente à sacada. As pessoas devem estar se divertindo mesmo. Um carro ultrapassou o sinal vermelho. Acho que eu deveria ligar para ela. Não sei. Não sei se ela me atenderia. Talvez.
Peguei o celular.
Apaguei o nome dela dos meus contatos, mas ainda sei o número de cabeça. Caixa-postal. Droga, derrubei café na minha calça. Entro novamente. Mando uma mensagem e deito no sofá, na esperança de obter um retorno. Nada. O uísque agora parece tentador. O som está diminuindo, ainda bem. Essa dor de cabeça está me matando. Estou ficando sonolento, mas não quero dormir. Deito no sofá e não paro de pensar nela. Por quê? Eu não era assim.
Caio no sono.
Acordo desesperado, eu não queria dormir. Por sorte, foi só um cochilo. Ei, e meu celular? Vou correndo até ele. Nada. Coloco ele no bolso. Pego uma dose de uísque. Fazia tempo que eu não o tomava. Será que ela não quer mais saber de mim? Saio à sacada mais uma vez. As pessoas estão indo embora. Vejo uma garota chorando do outro lado da rua, não consigo ver direito daqui. Acendo outro cigarro. O ar a noite é mais agradável. A noite deve ter sido melhor para ela do que para mim. Acho que vou entrar de novo e tentar pegar no sono. Tomo mais uma dose. E aquela garota na rua? Volto para vê-la, fiquei preocupado. Ela parece pegar o celular desesperadamente agora.
Uma mensagem recebida.
E o sol começa a nascer novamente.


