quinta-feira, 21 de julho de 2011

A madrugada.


   Já é madrugada. Estou sozinho em meu apartamento. Os sons e luzes da avenida onde moro entram pelas frestas da janela do meu quarto. Resolvo sair na sacada e observar a vida lá embaixo. Tudo é tão pequeno visto daqui de cima. O que será que eles estão pensando? 
   Acendo um cigarro e suspiro. 
   Eu poderia estar lá embaixo, tudo parece ser tão legal. Não sei se iria me divertir. Ainda penso nela, sabe? Dou mais uma tragada. Acho que vou passar um café, daqueles bem fortes. Cairia melhor do que um uísque antigo. Não quero me embriagar hoje, sozinho. Só queria voltar no tempo agora. Vou até a cozinha e ligo a cafeteira, aquela que mais cuida de mim aqui em casa. Acendo outro cigarro e deito no sofá. As luzes entram pela sacada, como se me seguissem. O barulho está começando a me incomodar. Não sinto sono algum. 
   O café está pronto. 
   Onde será que ela está agora? O café ficou forte, do jeito que eu gosto. Resolvo sair novamente à sacada. As pessoas devem estar se divertindo mesmo. Um carro ultrapassou o sinal vermelho. Acho que eu deveria ligar para ela. Não sei. Não sei se ela me atenderia. Talvez. 
   Peguei o celular. 
   Apaguei o nome dela dos meus contatos, mas ainda sei o número de cabeça. Caixa-postal. Droga, derrubei café na minha calça. Entro novamente. Mando uma mensagem e deito no sofá, na esperança de obter um retorno. Nada. O uísque agora parece tentador. O som está diminuindo, ainda bem. Essa dor de cabeça está me matando. Estou ficando sonolento, mas não quero dormir. Deito no sofá e não paro de pensar nela. Por quê? Eu não era assim. 
   Caio no sono. 
   Acordo desesperado, eu não queria dormir. Por sorte, foi só um cochilo. Ei, e meu celular? Vou correndo até ele. Nada. Coloco ele no bolso. Pego uma dose de uísque. Fazia tempo que eu não o tomava. Será que ela não quer mais saber de mim? Saio à sacada mais uma vez. As pessoas estão indo embora. Vejo uma garota chorando do outro lado da rua, não consigo ver direito daqui. Acendo outro cigarro. O ar a noite é mais agradável. A noite deve ter sido melhor para ela do que para mim. Acho que vou entrar de novo e tentar pegar no sono. Tomo mais uma dose. E aquela garota na rua? Volto para vê-la, fiquei preocupado. Ela parece pegar o celular desesperadamente agora.

Uma mensagem recebida.

E o sol começa a nascer novamente.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O parque.



   Acordei mais uma vez com aquela sensação ruim, aquele aperto no peito que eu não sei explicar. Talvez seja saudade, talvez carência, talvez seja falta de atenção, talvez seja tudo, ou talvez não. Não importa o que é agora, só sei que é ruim. E do que é ruim eu quero distância! Resolvi dar uma volta no parque pra esfriar a cabeça, e, quanto mais eu andava, mais eu pensava nisso, e mais me machucava. Não resolveu, mas tudo bem, sou teimoso. - Essa volta no parque há de me curar!
   Então no dia seguinte, fui dar outra volta no parque, e novamente bateu aquela sensação de ansiedade que há anos eu não sentia. Jurei pra mim mesmo que nunca mais ia me sentir assim, mas no momento parecia ser inevitável. Passei dias e dias indo ao parque, incansavelmente, na insistência de que isso ia resolver minha angústia. Pouco a pouco fui me desintoxicando e deixando essa maldita dependência de lado. A amargura foi passando, os dias foram ficando menos nublados e eu já estava até gostando de passear no parque. Comecei a reparar nos cães passeando com seus donos, nas crianças se lambuzando com sorvete e nas velhinhas que iam no parque só para matar o tempo, assim como eu. O ar puro começou a encher meus pulmões. Meus olhos já não suavam mais, meu coração deixou de palpitar e meu cérebro deixou de me atormentar com as suas armadilhas. Enfim estava curado.

E, novamente, jurei em falso...

terça-feira, 19 de julho de 2011

O canário.


   Hoje de manhã, com uma fresta de luz entrando pela minha janela, acordei ao som do canário do vizinho. Resolvi levantar e observá-lo por um tempo pela janela do meu quarto, já que nunca reparei nele, e vi que era um canário de um amarelo bem vivo, agradável aos olhos. Um pássaro realmente bonito. Só fiquei triste por vê-lo cantando de uma gaiola e não empoleirado num telhado ou árvore qualquer.
   A partir disso, fiquei pensando: Esse canário não deve ter sequer voado ainda, não deve ter sido alimentado na boca pelos pais, e muitas outras coisas que me fugiram. E por quê? Por mero capricho daqueles que se acham donos de tudo. Tomam a liberdade de um ser com a desculpa de que estão cuidando dele.
   Então eu lembrei da minha avó, que alimenta as rolinhas da rua dela. Todos os dias, quando chega aproximadamente 5 da tarde, minha avó sai com um saquinho cheio de alpiste, chama as rolinhas e alimenta-as. As rolinhas são livres, e mesmo tendo a opção de voarem o quão longe quiserem, voltam todos os dias, no mesmo horário, até o portão da minha avó.

Aí que eu me pergunto: Se meu vizinho soltasse o canário, ele voltaria no fim da tarde?